O objectivo do Projecto EUROCODE (Colaboração Europeia sobre Demência), financiado pela Comissão Europeia e coordenado pelo Alzheimer Europe, foi determinar a prevalência da demência na Europa com base nos resultados da investigação existente até à data.
A Dra. Emma Reynish, consultora geriátrica do Victoria Hospital (Kirkcaldy, Reino Unido) e os restantes colegas do EUROCODE conduziram uma busca extensiva da literatura, usando as metodologias de revisão Cochrane e construíram uma base de dados de todos os estudos epidemiológicos realizados até a presente data. Através desta revisão, foram identificados 194 artigos, e 26 estudos reuniram critérios de inclusão para participar na análise colaborativa.
Segundo a Dra. Emma Reynish, enquanto as taxas de prevalência para os homens e mulheres até aos 85 anos confirmam amplamente os resultados anteriores, as taxas de prevalência específicas para a idade, são superiores às previamente documentadas para os grupos etários mais avançados femininos, ascendendo a mais de 50% nas mulheres com mais de 95 anos.
"As nossas principais conclusões confirmam que a idade continua a ser o mais importante factor de risco para demência," disse Reynish. "No entanto, devido à falta de dados, em estudos anteriores, sobre a prevalência da demência nos grupos etários mais avançados, a prevalência da demência em mulheres com idade superior a 85 anos era subregistada."
Jean Georges, Director Executivo da Alzheimer Europe realçou a importância dos resultados: "Estes resultados são importantes por dois motivos. Em primeiro lugar, vêm confirmar aquilo que já sabíamos sobre a prevalência da demência na Europa para as pessoas até aos 85 de idade. Ao mesmo tempo, mostra que a prevalência do número total de pessoas com demência na Europa, na faixa etária mais avançada, se encontrava registada abaixo da realidade. Só na União Europeia, estimamos agora o número total de pessoas com demência em 7,3 milhões, em vez dos 6,5 milhões que até aqui estimados. Este facto coloca desafios importantes a todos os sistemas de cuidados de saúde, já que o segmento etário mais idoso é aquele que apresenta os índices de crescimento mais rápido nas sociedades europeias ".
A Alzheimer Europe é uma organização europeia que congrega actualmente 34 organizações-membro em 30 países europeus, entre as quais se inclui a Alzheimer Portugal. A missão da Alzheimer Europe é a mudança de percepções, práticas e políticas para garantir a igualdade de acesso de pessoas com demência a um elevado nível de cuidados e opções de tratamento.
Para a Alzheimer Portugal, os dados agora revelados demonstram a urgência de incluir a Demência nas prioridades de saúde pública e de política social.
As 153 000 pessoas com Demência referidas neste relatório para Portugal podem representar um universo de 90 000 pessoas com Doença de Alzheimer, número que se prevê poder duplicar nos próximos 30 anos. Se tivermos em conta que esta doença não afecta apenas o próprio mas também a família, entenderemos a dimensão do número. É rara a família ou a pessoa que não tenha ainda tido contacto esta Doença.
Na Europa, são já 7,3 milhões de pessoas com Doença de Alzheimer e, por isso, assistimos ao lançamento de vários planos nacionais para a Doença de Alzheimer – Inglaterra, França, Alemanha, Malta, Noruega. O próprio Parlamento Europeu considerou a demência como uma prioridade de saúde pública europeia, na Declaração Escrita 80/2008, subscrita por mais de 80% dos Eurodeputados portugueses.
Esta é uma Doença que comporta um grande estigma, que provoca um enorme sofrimento e que obriga a cuidados específicos. Um cuidador chega a ocupar 10 horas do seu dia com a pessoa doente. É preciso acabar com a ideia de que só acontece aos outros ou de que é uma doença de “velhos”. Por outro lado, é uma doença que exige ajudas técnicas específicas, medicação cara e comparticipada apenas pelo escalão C com prescrição por médico especialista. Estes obstáculos fazem com que muitas pessoas não tenham acesso a medicação.
É urgente exigir que o Estado – e o mesmo é dizer todos nós – assuma a Demência como uma prioridade de saúde pública e trace um Plano Nacional para a Doença de Alzheimer. Um plano que contemple a formação de profissionais de saúde, a criação de equipamentos e o apoio na medicação, nas terapias não farmacológicas, nas ajudas técnicas e uma vida com mais qualidade para as pessoas com demência e para os seus cuidadores.
Este não é um problema exclusivo das Pessoas com Demência, é um problema de todos nós. É preciso dar resposta às pessoas que sofrem desta Doença, aliviar a carga dos cuidadores e dar meios aos profissionais de saúde.